terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Mandela- O Libertador.Mandela, Olodum, A Bahia.

"Uma questão que me preocupava profundamente na prisão era a falsa imagem que eu projetei involuntariamente para o mundo exterior; de ser visto como um santo."


Trecho de seu último livro, "Conversations with Myself" ("Conversas comigo mesmo", em tradução livre), de 2010.

Mandela, Olodum, A Bahia.

O Libertador.

."
Nelson Mandela vai viver entre nós na Bahia e no Brasil por muito mais tempo que sua memória será lembrada na África e no seu país natal a África do Sul, tal a necessidade de líderes e heróis da luta pela igualdade que temos entre nós, o último lugar da terra em que o apartheid sobrevive, sem leis escritas e através do Direito costumeiro, as regras que mantêm a desigualdade na Bahia e no no Brasil, não permitem o surgimento de nenhum homem ou mulher com tal  envergadura moral ética e de sorriso farto, gestos nobres e alegria militante capaz de libertar os oprimidos e opressores em nosso sistema.

Mais o que eu tem haver a Bahia com Mandela? ou o Olodum.? O que há em comum o ANC (Congresso Nacional Africano) com o Olodum? Por que esta identidade e tão comum? Bem sou um quadro do movimento negro brasileiro, formado dentro de casa, na rua do Bispo na Praça da Sé, Centro Histórico hoje Pelourinho, por minha família de São Gonçalo dos Campos e de Itabuna, de pai negro e mãe branca e a discussão sobre a identidade e consciência era uma constante em casa, depois no ginásio, no colégio Central, e na livraria Literate os livros em português vindo de Lisboa sobre a luta de libertação dos países africanos, as ideias de Abadias Nascimento, Leila Gonzalez, símbolos do movimento negro brasileiro.

Sou de uma geração que acreditava que Mandela ia morrer na cadeia e que o apartheid jamais acabaria, devido o apoio internacional dos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, Portugal, Brasil, Israel ao injusto sistema do apartheid e a prisão dos condenados de 1962. Minhas expectativas estavam erradas, uma luta mundial libertou Mandela e seus companheiros em 1990 e destruiu legalmente o apartheid, conduzindo os prisioneiros ao poder político e dai a visita ao Brasil e a Bahia.

A minha caminhada pessoal e do Olodum para falar de Mandela, do ANC ( Congresso Nacional Africano) foi longa, começamos com a minha identificação com as idéias de igualdade, um homem um voto, a carta da liberdade na África do Sul e na Bahia o meu contato com as idéias da Revolta dos Búzios de 1798, falando do tempo em que todos seremos iguais, entres as influencias do movimento negro americano, dos países da África ocidental, da negritude dos poetas do Senegal e Martinica,.

A África do Sul, povo banto, o movimento plural de Mandela e dos seus companheiros me atraiam mais, junto com a tese de que aquela prisão era injusta tudo me convencia a ser aliado e fazer da luta pela liberdade de Mandela uma bandeira internacional para o movimento negro.
Ao vir para o Olodum tive a liberdade para colocar os textos e as ideias do ANC, de Mandela nos poemas, dedicatórias de discos, e influenciar os compositores para colocar as expressões “Libertem Mandela, Mandela, nosso irmão, contra o apartheid “mais que chavões caíram no gosto popular e logo surgiram as primeiras musicas embalando as passeatas do Olodum e do movimento negro dos anos 80.  

A música Protesto do Olodum de Tatu de 1987, virou um hit cantada por Betão e um símbolo poderoso destas idéias e da luta por igualdade e colocava o Pelourinho no mesmo plano de Swoeto, e clamava libertem Mandela, acabem com o apartheid. E os ensaios e eventos do Olodum passaram a terminar com a música “Nkosi sikelel' iAfrika - de Enrich Sotonga Hino do ANC e musica símbolo da luta contra o apartheid em todo mundo.

Gravamos esta musica no terceiro disco do Olodum de 1989, com um poema da minha autoria, falado por Eusebio Cardoso e a musica cantada por Pierre Onassis, o poema era uma profecia de quem mais cedo ou mais tarde Mandela sairia da cadeia e ficaria livre. 

A divulgação da África do Sul em Salvador e na Bahia foi uma campanha política do movimento negro liderada pelo Olodum, MNU e tantas outras organizações mobilizadoras, e didática explicava que numa sociedade maioria negra mestiça a dominação da população branca era algo injusto e comparava esta situação com a Bahia e Salvador. 

A divulgação da musica funcionava assim, qualquer evento do Olodum com música o final era com o hino do ANC de tal forma que popularizamos a canção e quando Mandela veio a Salvador em 1991, mais de 150 mil pessoas cantavam a musica na Praça  Castro Alves diante do emocionado líder africano. Nos tornamos os únicos brasileiros a cantar  esta canção com algum significado  social.

No ano de 1989, estava em Brasília na casa de Carlos Moura importante militante nacional do movimento negro quando fizemos a primeira reunião para tratar da vinda de Mandela livre a Bahia, os planos era levar a São Paulo ao Rio de Janeiro e a Brasília. O líder Mandela não viria a Salvador, na hora protestei veemente Mandela deveria vir a Bahia para simbolicamente nos ajudar a avançar a luta contra o racismo e pela igualdade. Um deputado federal da Bahia, insistiu que bastava Mandela ir aos outros estados e estava tudo bem, fiz a desfasa da vinda a Bahia e na votação ganhamos a visita lustre de. Mandela a Salvador.

Como estudante de Direito, e junto com mais de cem organizações negras e populares, com deputados. Estaduais da legislatura de 1989' criamos um capítulo sobre o negro na Constituição do Estado da Bahia e um artigo proibindo a Bahia de ter relações com países que praticassem racismo de forma legal e institucional. Além de outras ações afirmativas na publicidade do Estado incluindo a participação de negros na publicidade. Inspirados por Mandela, fui a tribuna da Assembleia e defendi nossas idéias como objetividade e até os deputados da situação governistas votaram a favor do capítulo do negro e da restrição relações com a África do. Sul. 

O artigo da Constituição da. Bahia que trata deste assunto é o Art. 287 - Com países que mantiverem política oficial de discriminação racial, o Estado não poderá:

I - admitir participação, ainda que indireta, através de empresas neles sediadas, em qualquer processo licitatório da Administração Pública direta ou indireta;
II - manter intercâmbio cultural ou desportivo, através de delegações oficiais. 

No domingo de 1990 durante a realização do Festival de Músicas e Artes Olodum, o Femadum, no domingo recebemos no evento a noticia de que Mandela estava livre e saiu da cadeia, o Pelourinho explodiu de alegria milhares de pessoas gritando e batendo palmas. Dias depois fizemos uma passeata de mais de cinquenta mil pessoas numa terça feira para comemorara a vitoria de Mandela e de sua organização, nos preparamos para receber lo em Salvador, foi uma luta enorme atender todos os interesses envolvidos nesta operação, mais o nome de  Mandela trazia paz e obrigava a todas as correntes a pensar coletivamente, mesmo sem sua presença podíamos sentir lo entre nós.

Em 1991, Mandela veio a Bahia, levei o Olodum e Neguinho do Samba levou a banda mirim para ver o libertador, o líder, o homem que mudou o seu mundo, o combinado nas reuniões preparatórias era que as milhares de pessoas iriam esperar ele sair do avião e vir ao prédio ao ser avistado no avião a população rompeu todas as barreiras e foram abraçar Nelson Mandela. 

Na praça Castro Alves a noite um deliro coletivo, Nelson Mandela e um povo ávido de símbolos, de heróis e uma elite baiana bestificada como isto foi possível, o que este homem causava tanta paixão na negritude baiana e como magica recebemos todo apoio para os eventos de Mandela na Bahia com a falsa ilusão de que logo depois ganharíamos a igualdade em nosso sistema colonial que ainda nos mantém pesos as correntes invisíveis,’

Mandela na Bahia, o movimento negro ganhou, a sociedade ganhou, o Olodum ganhou, os compositores acertaram a mão, e as palavras de libertem Mandela e apartheid não, tornaram se comum aqui nas terras de João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luis Gonzaga, heróis de 1798 com as mesmas ideias e esquecidos e poucos citados entre nós. 

Tempos depois a vida de Mandela, da sua organização ainda é uma história desconhecida da maioria fora o seu nome original, Pouca gente sabe dos seus amigos, Walter Sisulu, Oliver Tambo, Subukawe e tantos outros líderes do ÂNC. Nos encontramos secretamente em Londres em 1990' e na Escócia para aprender como fazer a luta contra o racismo internacionalmente, no Brasil, o Comafrica da Dr. Jeniffer nos ajudava com informações. O Olodum fez um tema de carnaval em 2008 sobre  a África do Sul, e em 2010 sobre India Brasil e África o Sul, na casa do Olodum há um auditório Nelson Mandela, na Escola Olodum ha uma sala de lideranças com nome de Madiba  (Mandela) Fantasias, textos, livros, um tesouro das ideias de Mandela estão nas casas e imóveis do Olodum, onde gente de todos os tipos visitam frequentam e  apreendem algo sobre a liberdade.. 
  
Mandela escreveu uma autobiografia, e nos seus livros e filmes fez de tudo para demostrar seus erros,, medos, estilos, formas acertos e perdas que alguém da estatura de Mandela com certeza tem, mais superou as dores, as raivas e preconceitos de uma forma facil, e se morasse na Bahia, seria criticado por muitos militantes, e organizações por ser adepto de reconciliação sem vingança e de uma organização que tinha negros, brancos,a asiáticos, mestiços, para superar o racismo e o apartheid. 

Com alegria vejo que na morte de Mandela adversários das ideias dos movimentos negros, dos movimentos de promoção da igualdade racial, países, instituições passaram a amar, adorar o ex preso Nelson Mandela, uma reviravolta fantástica, no Brasil o assunto ainda e tratado como algo internacional e não diz respeito ao racismo no Brasil,na Bahia e em Salvador.

Mandela na Bahia foi a cozinha do Palácio de Ondina para falar com negros, o presidente Thabo Mbeki posterior a Mandela, no mesmo palácio perguntou ao governador Paulo Souto ao meu lado  onde estava as autoridades negras, os empresários negros, ao ouvir a resposta pediu o carro e foi para o hotel Pestana, lá nos falou que estava constrangido pois viu uma imagem da África do Sul da época do apartheid e ver tantos brancos no poder e a ausência de nego sem esfera do poder. Esta imagem ainda e atual e não incomoda a Bahia, apenas os que lutam contra o racismo. Precisamos superar este fenômeno.

Somos muitos criticados por lutar contra o racismo junto com pessoas brancas, somos criticados por dizer não a propostas que são contra os interesses da comunidade negra, somos criticados por não querer a o isolamento da. Comunidade nega como os banstutoes da África do Sul, somos criticados por ter na banda e entre cantores gente de todas as cores. Mandela dizia não, apoiou o time branco de Rugibi. mais também avançou a luta e dialogou quando preciso. 

Em Moscou em uma entrevista destacou o papel do Olodum na luta contra o racismo e os embaixadores da África do Sul vistam o Olodum como um Grupo próximo da ideologia de Igualdade de Mandela, esperamos vencer aqui também, temos energia do Pelourinho e nossa gente para isto. Superar o racismo e construir uma sociedade de iguais

Ao criar uma maioria contra a ideologia de superioridade de um povo contra outro ,venceu com as idéias, o apartaheid, conceitos estes que o Olodum tanto admira diversidade, paz, pluralidade, otimismo, mudar de idéias, avançar, recuar, combate a violência com a não violência.

Mandela viverá aqui até sua façanha realizada, possa ser vivida aqui por uma super libertador ou libertadora. Uma volta de Moisés e ou de milhares de Mandelas. Para que a Bahia e o Brasil possa serem aclamados internacionalmente como terra da oportunidade e igualdade.

João Jorge Santos Rodrigues 
Advogado. Mestre em Direito Público.
Presidente do Olodum.


POEMA DA LIBERDADE

(João Jorge) 1988.

ELE ESTÁ PRESO
PORÉM, SIMBOLIZA A LIBERDADE PARA O SEU POVO

ELE NÃO PODE FALAR
PORÉM, TODO POVO OUVE A SUA VOZ
ELE NÃO PODE SER FOTOGRAFADO OU FILMADO

PORÉM, TODO O POVO SENTE A SUA PRESENÇA
ELE VAI CONQUISTAR A LIBERDADE ATRAVÉS DA LUTA, 
DA ORGANIZAÇÃO E DA FORÇA DO SEU POVO

SEU NOME, NELSON MANDELA.


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